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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Escassez de pensadores

O Brasil está indo de mal a pior. Não se formam mais pensadores nesse país. Parece que querem que as pessoas não cresçam nunca intelectualmente. Vou mais além: parecem que querem que tenhamos mais peões de obra preocupados com dinheiro do que mais cidadãos com capacidade real de mudar alguma coisa nesse país.

Essa foi a conclusão após uma conversa com meu pai e meu irmão durante a tarde, enquanto tomávamos café, nesse domingo chuvoso de Porto Alegre. Tudo começou depois de eu dizer que as universidades não formam pensadores. E isso veio depois de eu começar a falar sobre a possível desregulamentação da profissão de jornalista.

Argumentos vão, argumentos vêm, e meu pai toca num assunto importante: a escola não forma mais pensadores. E, como todo mundo sabe, a escola é a base de tudo. Não adianta ensinar apenas física, biologia, matemática, química, e outras matérias, se falta a principal: a filosofia.

"Mas logo filosofia?", alguns devem estar se perguntando. Sim, filosofia. Porque a filosofia é essencial para que procuremos investigar um pouco mais sobre a vida e as condições em que vivemos. Afinal, a vida é uma filosofia pura.

Com ela, podemos questionar tudo o que nos acontece. E não aquela babaquice do "quem sou eu?" ou do "de onde eu vim?". São questões um pouco mais complexas que, infelizmente, não fomos ensinados a procurar saber mais.

Meu pai disse que a filosofia era uma matéria obrigatória até um tempo atrás. Foi implantada pela ditadura. Veja bem: pela ditadura, segundo meu pai. Logo a ditadura, que não gostava de pessoas opositoras e gostavam de, pelo menos, torturá-las.

Aí a ditadura acabou e, como todo ser que defende a democracia, diz que a filosofia não era mais necessária porque fora implantada pela ditadura. Argumento igual fazem os defensores da desregulamentação da profissão de jornalista. Dizem os ananás que "o diploma foi tornado obrigatório para tolher a liberdade de expressão". Se é por isso, se tudo o que a ditadura implantou é necessário cortar, vamos acabar com as leis trabalhistas, os benefícios para agricultores, etc.

Depois de muito conversar, vi que a minha argumentação, de que na universidade não formam pensadores, é furada. Porque não adianta, depois de velho, querer ensinar as pessoas a pensar. É uma coisa que tem que ser feita desde o fim do ensino fundamental até a conclusão do médio. Até porque a filosofia é uma disciplina complexa, tal qual a vida.

Os investimentos no ensino fundamental são de responsabilidade do Município e os do médio ficam por conta do Estado. A universidade, pelo que vejo, faz sua parte, ensinando cadeiras como essa em seus currículos - só não aprofundam porque não têm como. E os demais não investem nessa matéria por quê? Medo!

Isso mesmo: medo. Medo de formarem verdadeiros cidadãos. Medo de, de repente, verem seus eleitores não caírem mais nas aramadilhas. Medo de serem questionados o tempo todo. Medo de não aceitarmos tudo o que vir como se fosse verdade.

É por isso que, dificilmente, vemos escolas trabalhando filosofia. Pode ser chato, mas não tanto quanto matemática, física, biologia, português, e outras tantas.

O problema é que querem que permaneçamos em escassez de pensadores. Afinal, como é que poderão continuar as diversas corrupções se o Brasil for o país dos questionadores?

A política me enoja.

***


P.s.: Quero aproveitar a parabenizar meu irmão Thiago, pela conquista que teve ao se graduar como Físico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tu mereces isso e muito mais. Beijo mano. Te amo.

P.s.2: Quer saber os riscos de uma profissão como o jornalismo ser desregulamentada? Leia o blog do Piero e saiba mais.

9 comentários:

Desarranjo Sintético disse...

Bah, realmetne é o que querem, querem que permaneçamos burros, sem capacidade de revolucionar o país...sem capacidade de questionar o mundo péssimo em que estamos vivendo.
Também não vou com a cara da política.

Fábio.

Tatah Marley's Confissões disse...

Acho que a politica enoja boa parte da população de um modo geral. O que falta é esclarecimento da população. Mais é algo basicamente impossivel, porque as pessoas que tem a fonte desse conhecimento todo são as que fazem questão de mante-lo longe da população menos favorecida.. É como eu digo.. O que seria do governo sem as pessoas ignorantes em termos de identidades ? O abuso de poder sempre existiu e provavelmente sempre vá existir, é uma situação cronica,por ser uma forma de opressão que encontrou traços e brechinhas culturais que consolidam tudo isso. A gente acaba ficando cego sabe? SE não cegos, desestimulados pelo medo, porque mesmo a ditadura tendo acaba na teoria, continua e muito na prática.

Bom assunto.
;*

Bianca Rieth disse...

Não concordo muito contigo, acho que no Brasil há muitos questionadores de opinião, visto que, a existência de blogs na Internet coordenados por pessoas “anônimas” em sua maioria sem um conhecimento aprofundado em determinado assunto – e mesmo assim, questionando-os - os torna formadores de opinião, sim. Não se pode negar que temos grandes falhas em nosso sistema educacional, acredito que mesmo com todos esses problemas, ainda há pessoas se questionando e argumentando sobre as “coisas”. Referente ao currículo escolar, pelo menos na minha escola eu tinha além de filosofia, sociologia – eu considero muito mais importante o estudo sociológico do que o filosófico para o aprimoramento escolar – aliás, na maioria das escolas de Canoas, há essas matérias, ou uma, ou outra.
Quanto à política, eu gosto de política, sempre gostei. O único problema – em meu ponto de vista – é que as pessoas associam “política” com eleição, partidos políticos, mas ela não é só isso, está muito mais além, pode ter certeza.

Beijos!

Rodrigo Dias disse...

Bianca, de uma forma geral, não temos uma sociedade pensadora, crítica, muito menos questionadora. É isso que eu digo: no geral, estamos muito aquém de questionadores.

Ok, existem blogs que questionam as coisas. Mas, vejamos: quantas pessoas têm acesso à internet?

Tem uma pesquisa que aponta 40 milhões de acessos únicos à internet em 2007. Dessas 40 milhões, muita gente - não falo em porcentagem porque não lembro - entrou na internet para duas coisas: ver e-mail e acessar orkut. E quando digo a maioria, é quase 100%.

Não estou negando o fato de termos formadores de opinião. Isso é outra questão. Estou falando de pessoas sem opinião. Analfabetos funcionais. Alienados. É disso que estou falando.

Com relação à política, não sei se me expressei mal, mas eu não disse que não gosto. É um ótimo assunto para se discutir e analisar, mas me enoja. Acredito que todos os que acessam esse blog sabem diferenciar política de eleições.

O que me enoja são os rumos que a política anda. Tanto que, em momento algum, foi tocado no assunto "eleições" - o qual comentarei, possivelmente, quando iniciarem as propagandas políticas.

Beijo e volte sempre.

Rodrigo Dias disse...

Ah, esqueci de dizer que achei legal os colégios de Canoas terem, pelo menos, Filosofia ou Sociologia nos currículos. As duas são de extrema importância: uma, pra ajudar na reflexão, e a outra para estudar a sociedade de uma forma um pouco mais ampla.

Vinícius Ghise disse...

O analfabetismo funcional é o mal do século.

Tunai Giorge disse...

.

O pior: Na universidade, vejo pessoas questionando cadeiras da área das humanas, como ética, fundamentos e outras. Matérias de reflexão dentro de seus cursos. Lamentável...

.

Português, Redação e Literatura - UFSM disse...

Muito bem. Adorei o seu filosofar sobre a Filosofia. Vc se mostrou um verdadeiro amigo da sabedoria. Bjão.

Mary West disse...

Te falo sinceramente que filosofia nunca foi a minha praia, mas entendi o que vc quer dizer com a base de pensadores escassa. Tá complicado mesmo, a escola como segundo lar deviar colaborar mais nessas horas, mas tudo bem, sobra p/ GENTE(eu e tu) educar futuros exemplos.

:D