Quinze minutos
Era um dia como qualquer outro. Acordou, levantou-se, olhou para os remédios em cima da cômoda e soltou um "puta merda". Fazia tempo que não fazia o tratamento adequado para os seus problemas de saúde, mas não estava nem aí: queria viver a vida da melhor forma possível. Para ele, isso seria sem tratamento.
Foi ao banheiro, tomou um banho, e se arrumou. Olhou para a cama e a mulher ainda dormia. Deu um beijo em sua testa e não disse nada. Voltaria a casa dali algumas horas.
Durante a caminhada lembrou-se do que mais amava na vida, além de sua família: a lida com cavalos. Quando era criança, não largava o que tinha na chácara da família. Estava sempre montado na Zefa, uma bela potranca negra - e não era funkeira, porque funk ainda não existia naquela época.
Ao chegar no prado de seu amigo, impossível evitar o sorriso. "Como é lindo isso aqui", disse à si mesmo. Cumprimentou Carlinhos, seu amigo de longa época, e foi tratar do Amadeus, um cavalo crioulo branco que adotou, sem falar com a família.
Enquanto ia em direção ao seu novo filho, recordou-se das intensas brigas que tivera em casa. Não falara à ninguém porque, a cada mês, uma boa parte do salário faltava. As brigas eram intensas e ele evitava falar sobre isso. Investia aquela irrisória quantia no tratamento do Amadeus. "Vocês não entenderiam", cansava de repetir, pois sabia que seus familiares não apoiariam a idéia de fazer esforço físico com sua saúde tão debilitada.
Olhou Amadeus e, como sempre, deu um beijo em sua face. O cavalo retribuiu com um relincho suave. Montou no cavalo e foi dar uma galopadinha básica, só para aquecer.
Após 15 minutos, um estrondo. O montador estava estatelado no chão, com Amadeus parado ao seu lado. Os que estavam o prado foram socorrê-lo, mas foi impossível salvá-lo. Seu coração parara de bater, mas seu sorriso não saíra do rosto.
Sabia que havia pouco tempo de vida. Resolveu vivê-la intensamente, mesmo que durasse apenas 15 minutos.
Texto em homenagem ao seu Lauro, marido da Iolanda, nossa empregada e amiga, que faleceu neste sábado após fazer o que mais amava: estar próximo aos cavalos. Que Lauro descanse em paz.

